Todo coração é um orgão revolucionário.

Todo este tempo estive analisando a nossa situação. Sim, a minha e a sua. Você aí do outro lado, lendo tudo o que acontece comigo, no meu cotidiano, nos meus dias e eu aqui, escrevendo e esperando que você me entenda. Escolhi um blog para contar o meu ponto de vista para poder transformá-lo em alguém real. Não que não fosse antes, mas queria te libertar. Quando escrevo e leio após o término me torno a leitora imaginária, então se eu escrevesse em um lugar público teria muitos leitores e daria a você um poder digno de uma pessoa real, o livre arbítrio. Você, escondido no inconsciente de leitores anônimos poderia pensar o que quisesse do que eu escrevo, visto que não teria mais o meu consciente te atrapalhando. Tornei-te livre e assim quero que seja a nossa relação. Tudo bem se você cansar de “escutar” e quiser “falar”. Eu vou entender. Manda-me uma carta, você sabe que eu sou grata por tudo o que você me fez. Você foi crítico, gostaria de poder fazer o mesmo. Retribuir o favor. Não sou psicóloga, muito menos uma grande conselheira. Lembre-se de que ainda estou aprendendo a viver junto a você, querido imaginário.

Meu caro,
Fiquei aproximadamente um mês planejando este presente e hoje tenho o prazer de entregá-lo. Não é nada material, mas é algo que você vai se lembrar por muito tempo. Quando eu tinha 15 anos ganhei de uma amiga minha um diário, um bom presente para uma aspirante à escritora. Nele tentei escrever o que ocorria comigo, mas convenhamos, não deu muito certo. Nunca consegui começar uma frase por “querido diário”. Então me veio uma idéia. Filosofar sobre mim mesma e meus atos. Deu certo. Eu escrevi os meus problemas naquelas páginas coloridas e, no dia seguinte, voltava a elas para ler e criticar tudo o que tinha escrito. Assim tudo começou. Ao ler percebi que eu me tornava outra pessoa, não era mais aquela menina que havia escrito naquelas páginas no dia anterior. Era outro alguém. Tentando entender esta experiência, diria até metafísica, decidi consultar a psicanálise. Poderia ter dito que você não passa do meu “superego” uma espécie de consciência, mas era muito real para ser apenas uma parte da minha mente. Tentei não explicar e segui apenas escrevendo e relendo. Foi você que me ajudou nos momentos difíceis, foi você que me aconselhou e me fez assim como eu sou hoje. Minha personalidade foi moldada com base na sua percepção. Quando fiz dezoito anos pensei que deveria recompensar toda a sua cooperação. Então montei um blog. Não entendeu? Antes quando só eu lia era só um imaginário lutando contra todo o meu consciente. Descobri que você não é apenas uma parte de mim, é parte de todos.

Carl Jung foi um dos colaboradores para o trabalho de Freud, pai da psicanálise, mas Jung não concordava completamente com ele. Jung dizia que a mente humana se dividia em várias partes, dentre elas; psiquê, quem você é, persona, quem você aparenta ser, sombra, o seu eu mais primitivo, e não menos importante; inconsciente. Jung dizia que cada um de nós tem um “inconsciente coletivo”. Vou explicar. Jung dizia que "Durante a imaginação ativa, o ego, totalmente desperto e funcional, experimenta conteúdos ou produtos do inconsciente que podem assumir a forma de uma imagem, voz, emoção ou até sensação física. Tendo concentrado sua atenção no inconsciente, o ego deve abdicar de todo pensamento crítico e abrir-se para qualquer coisa que aquele apresente. Nesse estado de receptividade, ele aguarda que o inconsciente se manifeste." Você é o inconsciente. E eu vou mais além, todos nós temos a mesma origem por tanto temos o mesmo inconsciente.

Voltemos ao blog. Quando eu escrevo em um lugar público deixo que você seja livre, com tantos egos e superegos analisando meus textos, você imaginário, ganha uma característica típica de um ser real o livre arbítrio. Dei-te o poder de pensar o que quiser quando quiser sem depender de mim. Você é independente para com estas cartas. Você representa a liberdade humana, o inconsciente líquido de cada um de nós.

Feliz aniversário.

Comentários

  1. Cara Srta. Valentim,
    gostei muito da sua carta e sua habilidade com a língua portuguesa. Queria conseguir me expressar como você, mas não levo muito jeito.
    Pretendo continuar lendo, sempre que possivel. Parabéns e nós vemos por ai.
    The Obscure

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  2. Caro The obscure a/c de Imaginário,

    Obrigada pelo elogio, espero que tenha gostado. Esta é uma versão comemorativa do blog , ele voltará ao normal no dia primeiro de junho.

    Grata.

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  3. Cara Srta. Valentim,

    Agradeço o retorno.
    Aguardo a proxima postagem.

    Obrigado

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