Um conto
No subúrbio, na janela da viela, no canto havia um ser estranho ao meio. Um ser vestido de terno e gravata, suando frio, triste, mas ainda assim feliz. Feliz de ver a tristeza onde estava. Ás vezes a sanidade nos falta nos momentos inoportunos. A vida não nos deixa mentir. Toxinas ajudam. Ajudam a esquecer a tal sanidade e a infelicidade supostamente comum ao meio. Meio esse que todos convivemos. Você sabe.
Mediocridade é comum nestes casos. Ele olha, cheira, vê para os lados, e nas horas de fome, come o que tem desejando ser algo melhor. Briga por pouco, com cães, com gatos, com ratos, talvez até com outros homens, mas como disse, ele cheira. Ele cheira a pobreza, antes de tudo. Cheira a podreza, também.
O carro passa e ele olha desapercebido como quando uma mosca passa ante os olhos e toma a atenção. Não gosta do que vê, cospe e resmunga algo. Nenhum palavrão, só algo sem nexo. O ser é vivo. Tem olhos e presas. Talvez garras. Se agarra nos versos livres de outrem e age como se fossem dele. Recita-os com a boca cheia de palavras e pula algumas que julga inocentes demais para estarem ali. Caminha pelas ruas, não causa furor. Não causa nada. Desprezo só pra quem o conhece, apego só em quem precisa dele. Alguém deve precisar, mas não é sobre isso que o conto trata.
A história passa num momento fugaz, num instante de segundo onde as realidades se encontram. Acalme-se, eu vou dissertar sobre o ocorrido. Foi num dia de chuva, quando num impulso enlouqueceu e pôs-se a andar pela rua. Não fazia ideia de onde estava indo, mas a droga que tinha tomado o guiaria para frente. Algum lugar na frente. Estava indo quando num décimo de segundo um carro apareceu e tomou a calçada. Logo no meio, o carro em direção a ele corria em disparada. Era o fim desta rodada. Podia ele adivinhar tal fim? Correu para trás como se disso dependesse sua vida, e dependia. As luzes da verdade haviam finalmente iluminado sua cabeça e no momento que as rodas ultrapassaram seu corpo decidiu num relance morrer como um homem lúcido. Rezou seu terço como lembrava e caiu morto na beira da rua.
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