Carlos
Interrompido por mais um clic.
Continuo a minha saga de limador e ourives, a prosa perfeita, o poema
perfeito. Lírica submetida a perfeição inexistente, aparência.
Aparescência. Se tudo o que é belo é bom e traz prazer, o ourives
é um artista, um estivador das letras, um fingidor que não consegue
enxergar na janela aberta a Verdade Absoluta. Estoicos, socráticos e todos esses amadores
pós-idade média não sabem e nunca saberão o poder das palavras
absortas em uma mente sem escrúpulos. Nem eu, nem você, nem ninguém
há de ler o que está por trás do que foi dito. Tratado, armado e
costurado com teias de aranha.
No mais escuro dos quartos da rua
d'Ouvidor, numa sela, Sebastião, lima, sofre e sua. No mais porque
estava quente, calor eufórico das portas do Carnaval. Rio de
Janeiro, 11 de fevereiro de 1997. Caro amigo, venho por meio desta,
não, venho por meio desta carta anunciar meu suicídio. Não posso
mais viver a ilusão de tê-lo de volta, ponto. Não mais. Nada mais.
Clic. Era ele numa chamada virtual. Atender seria suicídio. Melhor
deixar para uma hora mais oportuna. Caro amigo, não posso mais viver
sem você, por isso deixo a vida como quem deixa (citação à
Werther).
Pensei em citar o próprio
Getúlio, mas como se sabe o Brasil é a cópia mal feita dos erros
Europeus, por isso a preferência por algo mais antigo, mas
igualmente atual. Não me julgue. O inacabado faz parte do teatro.
Nada é acabado, posto que ainda está vivo e perece. A língua está
viva em mim, e perece. A carta que ainda não foi lida está viva em
mim, e perece. Nada é tão inacabado quanto o próprio viver. Mas as
luzes e as cortinas vão determinar o final do ato.
Eu sei como termina a história e
estou muito próximo de terminar de escrevê-la. Você pensa: ele é
mais um suicida, se mata e a história acaba. Mas quem disse que a
história acaba? Quantos contos de amor serão necessários para o
amor acabar? A finitude é um luxo dos deuses. Eles existem, ponto.
Beneditino escreve: Não aguento esta vida de prisioneiro de mim
mesmo, deste neon piscando em plena meia-noite, mas vou sentir
saudades do vidro sujo de lágrimas e chuva, vou sentir falta do
confete. O exterior me chama, mas o interior me consome.
Sebastião, velho senhor de solas
gastas, termina a carta escrita no computador e a imprime. Espera a
máquina lentamente pingar as tintas sobre o papel alvo, formando
cores e tons que hão de se misturar ao seu sangue, um dia, formando
um terceiro tom a que chamamos de solidão. Despeja seus pertences
pela janela e some pelos becos e muros, deixando em seu rastro os
pedaços da carta, para que alguém os leia e remende-os com seus
próprios pensamentos. Assim foi feita a literatura, assim será
lembrada sua memória.
Os livros existem e perecem, as
histórias vivem e florescem em quem as lê até enfim perecer junto
ao leitor, porque a vida, ah, a vida, caminha para todos os lados
ficando impossível dissociá-la da arte. Produto, a arte não é
produto, é beneditino, ourives. É teia de aranha. Enrolada em si
mesma.
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