Gato


Intimidações à parte, eu vivo bem com o meu gato de três pernas. De vez em quando ele desaparece, vaga entre os meus pensamentos e eu me confundo. Ele realmente está aqui? O gato se apoia mais com as patas traseiras do que com as dianteiras, de bobo não tem nada. Quem não fica sempre um passo atrás é insensato. Ele está ali olhando para mim. O vejo bem, mas não tenho força para ir buscá-lo do canto do quarto. Forte e imponente. 

Deixo ele a vontade, sei que come de vez em quando e dorme também, mas quem ao longo de um dia agitado pode parar para notar o que o seu próprio gato faz? Ele está lá, aquele fio de esperança de que vai brincar com o novelo dos pensamentos, mas o trabalho me chama. 

A televisão me constrange a todo tempo, beijos, corpos nus, mulheres comendo iogurte branco, adocicadamente branco, murmúrios de prazer. Bocas abertas, tudo tão fácil e simples. A televisão dá a noção de que tudo pode ser tocado, mas ao chegar perto só existe tela. Imagem. A vida não é assim.

Saio de casa todos os dias às sete da manhã para trabalhar no botequim da esquina. Passo horas, minutos, segundos, infinitas eternidades sincronizadas pelo movimento do sol naquele banco. Vejo tudo e todos passarem pela porta do bar, vultos. Quando chego em casa, sento frente ao computador e o gato ainda está lá. Apoiado em suas três pernas, olhando para mim. Não come este gato?

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