Um título malfeito
Entre Abelhas é um filme aterrador. Num rompante de impulsividade, da teoria de que só se vive uma vez, eu e um acompanhante decidimos que declinaríamos dos nossos lugares na sessão de Os Vingadores para nos deliciarmos na maravilhosa aventura de assistir uma tragicomédia brasileira. Por alguns minutos eu realmente achei que me surpreenderia com um filme brasileiro. Eu realmente achei que a história hipnotizante com uma aura Cult pudesse fazer o cinema brasileiro sair do lugar-comum e tomar novas e distintas proporções em relação a produção internacional. Mas contrariando a crítica oligárquica, gostaria de expor que o filme teve ótimas intenções e uma terrível produção.
No momento em que o espectador entende o que pode e vai acontecer ao longo do filme, a expectativa se torna tão grande quanto a minha decepção. Se eu pudesse ilustrar, seria o equivalente a subida de uma escada, para no final pular de um penhasco. Ocorre que o filme se propõe a mostrar a vida de um homem que para de enxergar as pessoas, por tanto um problema seríssimo, e a retratar como as relações humanas entre os personagens são esvaziadas. Em resumo, um filme para pensar os problemas pós-modernos. Outros filmes já o fizeram muito bem, cito Cosmópolis, uma adaptação de um livro norte-americano, em que o personagem principal mora dentro de uma limousine. Só um exemplo. Pensei até em comparar a limousine com os celulares e suas mil e uma funcionalidades. Mas, como já disse, isto não ocorre.
Em Entre Abelhas, o diretor do filme, ou quem ficou responsável por dar os cortes entre as cenas não conseguiu montar uma suficientemente adequada sequência para que o espectador percebesse a aflição de ter fantasmas em vez de pessoas reais nas ruas. O problema é visto como algo banal, risível, nada trágico. Não que o filme não devesse ser risível, mas há de que ser risível em momentos corretos. De forma alguma criticaria a atuação da irretocável Irene Ravache, todas as cenas em que ela aparecia eram um bálsamo. Mas especificamente o não enxergar estaria relacionado com os atos de comunicação, e isso não foi entendido, traduzido, nem adaptado.
Por isso, quando a personagem da mãe morre o susto é tão grande. O que era visto com frieza de repente tornou-se um problema real. As cenas que se seguem são de uma inescrupulosidade mor. O autor não entende que não se pode matar uma mãe e tratar a cena do velório daquela forma. O personagem principal não consegue mais ver a própria mãe, inclusive depois que ela morre e que está em um caixão. A cena do caixão é espantosamente fria. Demonstrando que o problema do não enxergar as pessoas não está só na história, mas fora dela também. De certa forma, o roteiro se concentrou tanto no personagem principal que ele se esqueceu o resto. E o resto era importante, porque a medida em que o foco se perde, a trama deixa de ser interessante. O espectador já sabia que no final o personagem não veria ninguém, ou quase ninguém. Matar a mãe foi um desgosto que não pertencia ao gênero do filme. Um artifício vulgar para conseguir gerar a comoção da plateia. Desnecessário e aterrorizante para as almas mais sensíveis que estavam no cinema.
Sobre as abelhas, para quem não entendeu o título do filme vai uma explicação. Em determinado momento, o personagem diz que por ano muitas abelhas africanas somem das colmeias e ninguém sabe para onde elas vão. Isto é uma metáfora que relaciona este fato das abelhas com o fato dele não saber para onde as pessoas estavam indo quando elas sumiam. Porém, lembro que as pessoas sumiam somente para ele, não do mundo. Minha crítica ao nome do filme se dá, pois nesta teoria dá-se a importância para os indivíduos que nós sabemos da existência, mas não nos importamos em descobrir para onde vão se somem de repente. Por exemplo, sabemos que existem garis que limpam as vias públicas, mas não sabemos sobre a vida de cada um deles. Na minha humilde opinião, esta é uma ideia esquizofrênica.
Uma colmeia não é feita somente de operárias, existem os zangões e as rainhas. Se ninguém sabe para onde as abelhas estão indo, como saber as que não estão indo. O mundo é feito de milhões de indivíduos, tornando impossível se responsabilizar pela existência de todos eles. O que o filme propõe é que o problema do não enxergar está associado ao do não se responsabilizar pelas pessoas que se relacionam com você. Mas, até que ponto podemos assumir esta responsabilidade. Estar entre abelhas é um lugar-comum. O problema não é moral, e sim sintomático. A sociedade contemporânea tem modos e atividades diferentes da do século XX. Isto gera uma alteração nos padrões de comportamento social. As pessoas usam mais a tecnologia, muitas vezes em detrimento as relações pessoais. O virtual se fez muito presente no século XXI, mas isso não significa que nos deu o poder de saber e influenciar a vida de todas as pessoas da face da terra. Sabemos que elas estão lá, mas não temos poder sobre elas.
As interações humanas acontecem mais pela mediação virtual, mas elas ainda são interações humanas. E principalmente, estas interações não me fazem deixar de ver pessoas. Os conceitos de traumas como a morte continuam os mesmos. Por isso a cena da morte da mãe do personagem principal é tão dolorida. A análise do pós-moderno foi além do que deveria. Tornou-se inverossímil. Desinteressante.
Por tanto, sobre o filme, recomendo Cosmópolis.
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