Simbólico
O exercício deve estar acima da prática. O uso é criativo, mas o exercício é repetitivo e exaustivo, a linguagem é uma repetição, variável, pois está a par da perfeição, mas reincidente nos próprios erros.
A circularidade da linguagem me atinge profundamente, tanto pelos sons, quanto pelos discursos. Na minha memória os versos de Carlos, do Fernando e do João, coexistem tão claramente que é possível ler diversos poemas juntos, desrespeitando datas, temas ou tradições. Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, pois lá sou amigo do rei, não encontro eu cá belezas como lá.
Simbólico ou não este texto já é uma reincidência, uma contemplação dos meus pensamentos mais internos, um transbordamento de algo que já se passou, mas persistiu vivo até encontrar seu fim num pedaço de papel.
Reflito agora que um romance não é feito de um conjunto de ações, e sim de uma trama que vai mais além do que lhe é superficial. A cor do tecido, ou seu aspecto tátil não importa, mas a maeira como os fios foram trançados é o que fará a diferença. Se existem um homem e uma mulher competindo pelo mesmo espaço de trabalho, não importa. Mas a maneira como se tratam e como são construídos através da linguagem vai trazer os personagens para o real. A literatura é o que faz o existir. Num texto teatral não existe senão a singularidade de personagens postos em um tempo e espaço. Ao contrário do romance que impõe seus personagens à realidade concreta, ela sendo verdadeira ou não.