Táxi
Ontem, voltando meia-noite para o Rio de Janeiro, saí do aeroporto a busca de um táxi que pudesse me levar para as barcas, senão para Niterói. Guiada pela desesperança e pelo terror de ilhar-me num porto de passagem, contei com um fio de esperança na fé cristã e na sorte pagã para sair dali. Porém, a história não é somente essa. Ao chegar em uma fila, abordada por um taxista que se dizia líder de alguma coisa, fui tentada a aceitar uma corrida até a minha casa por módicos cem reais. Estou voltando pra casa, cento e quinze. Cem, se você estiver dura.
Claro, eu disse. Atravessamos a rua, atravessamos a praça e, não sei se pela minha cara de susto, o taxista chamou-me de sobrinha. Pensei; é da sua cabeça. Não pare de ler agora, pois tudo acaba bem, tudo acaba como deveria acabar. Repetiu que era da empresa de táxi do aeroporto, muito rigorosos, cheios de autorizações e seguros. Não ia cobrar taxas de retorno ou bagagem. Você paga pelo menos o pedágio? Você é carioca. Sabe como funciona. Saindo da praça, já com o motorista exercendo sua função, comecei a teclar minha posição geográfica pelo celular. Estava ameaçada, precisava me certificar que chegaria bem. Por alguma razão, sentia-me coagida, amordaçada, ferida. Você tem dezoito anos, minha sobrinha? Você é muito jovem, ele disse. Não, eu tenho mais, eu disse. Você vai por onde? Pela Bicalho? Perguntei. Se não estiver fechada posso ir, ele disse. Sim, precisava mostrar que sabia exatamente o caminho para casa, que conhecia o centro do Rio e Qual o nome do senhor mesmo? É de qual empresa? Meu nome é este, meu telefone é este, não tenho cartão, anota aí, todo mundo aqui me conhece. Minha sobrinha.
Continuei no celular, dizendo cada passo para o teclado. A cidade está toda quebrada. Se o Romário for pra Prefeito o senhor vota nele? Eu voto, Romário já ganhou. Mas você é muito inteligente, apesar de novinha. Eu sou professora! Ah, doutora, me desculpe, você parecia novinha. Você está muito bem, nem parece, muito conservada. Você é muito pura, pessoa do bem, dá pra ver que é muito inocente, fala sem pensar. Pensava bem, sabia o nome de cada favela no entorno, sabia cada objeto cortante da minha mala. Poxa, vou ter que voltar no centro na terça, o problema é o trânsito, muito ruim. O senhor sabe chegar no meu bairro? Claro, eu moro no bairro do lado, vamos passar na frente da minha casa. O que você quer escutar? Samba? Bossa-nova? Moço, só põe bem baixo porque eu viajei o dia todo hoje. Vira aqui pra ponte, né? Isso. Eu só quero chegar em casa bem, e rápido.
Pela ponte com velocidade, o registro sentimental muda. Saí do perigo da outra cidade, medo do aparente desconhecido territorial e humano para um habitat natural. Cruzar a ponte é cruzar uma barreira invisível do eu. Eu tenho um taxista em Niterói que me leva no Rio. É bom saber que tem um do Rio pra me levar em Niterói. Naquela hora que eu te peguei não tinha ninguém pra vir em Niterói, agora estão todos os meus clientes me ligando. Faço este caminho toda hora. Agora estou em casa, agora o perigo sou eu. Quero chegar em casa, hein? Sabe chegar? Vira aqui. Aqui não, tem muito tiro, eu moro aqui, naquela janela do ar condicionado, disse o motorista. Você bem que podia pagar cento e quinze, hein? Túnel. Vira à direita, à esquerda, aquela é a minha mãe no portão. Vou pagar a mais. Sua filha parece muito novinha, dona. Fala pra ele a minha idade, mãe! Ela é mais velha, sim. Dá meu telefone pro seu namorado, ele vai precisar de um taxista pra levar em Niterói. Sim, sim. Joguei na mega-sena, amanhã quando você vir um negão cheio de ouro, sou eu. Sim, sim. Boa sorte, obrigada, boa noite. Eu venci.
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