Sobre a criatividade

Pode-se dizer que aos meus quatorze anos eu era jovem, inexperiente, impulsiva e curiosa, mas é inegável que o talento para a expressão artística já era aflorado. Conseguia articular bem as palavras e , apesar da pouca prática, adquiri, graças ao meu pai, um talento permissivo de escolher os autores certos. Cresci dentro de uma livraria, onde meus melhores amigos ficavam entre as estantes de literatura e autoajuda. Naquele tempo autoajuda era mais ficcional do que muitos romances policiais.  E, com a ajuda dos grandes mestres, me escorava nas palavras buscando de alguma forma expressar as histórias que se passavam na minha cabeça. No início eram paródias e adaptações de filmes, desenhos ou qualquer outra coisa que passasse pelos meus olhos, mas, com o tempo, não era o suficiente.

A adolescência não é um período calmo para ninguém, nem mesmo para os psicopatas. A adolescência é um período conturbado em que as emoções se misturam à realidade, deixando tudo, ou um pouco mais, ficcional. Os romances não adiantavam mais. Aos dezesseis eu não escrevia. Durante muito tempo, creditei a falta de interesse pela literatura aos meus pais, assim como todo bom e velho adulto. Descarreguei a minha culpa na imagem do casamento falido dos meus pais e na decadência política e econômica do país que jogou nossa família no desespero burguês. Não tínhamos poder de compra, não tínhamos nada, mal tínhamos uns aos outros. O rompimento da família era, para mim, o motivo da não ficcionalidade.

Mas o principio básico do tempo não é a linearidade, e sim a projeção. Tanto para o passado, quanto para o futuro. Como bom jovem, projetei as esperanças num futuro, no qual após árduo trabalho acadêmico poderia enfim retornar ao literário. "Cardam o literal". Passei perto da literatura, tão perto que o abismo pode, enfim, ser enxergado com clareza. Aquilo não era literário, era sobre literário. Diferença pontual e exigente da ciência. Quem disse que a língua não é precisa?

Posto a minha volta ao passado, fica claro agora meu papel. Aos quatorze, criava narrativas fantásticas. Aos quinze, narrativas românticas, aos dezesseis o silêncio surgiu em mim. Perdurou amargurado no meu peito. Um nó que só poderia ser atado e não desfeito. Não era culpa do tempo, mas sim do seu princípio básico. Não havia como voltar, pois na verdade não há volta. O retorno é sempre àquilo que não foi, por isso não é mais. O momento chave é saber que não existe a possibilidade de pensar da mesma maneira. Por isso o silêncio.

Aos dezesseis anos, e cabe uma digressão aqui, parei de escrever porque me dei conta de algo fatal. Não havia como continuar, porque eu havia alcançado o fim. O limite do literário existe, ele está presente. Foi isso que me dei conta. As narrativas, sejam elas quais fossem, não eram mais suficientes para abordar a realidade. Não havia saída. Não podia mais escrever sem ser mais do mesmo. A angústia da autoria me chegou cedo, muito cedo. E este era o meu medo.


Onde cabia a digressão aqui fica transcrita: Tudo isso graças à poesia. Aquela que eu rejeitava com veemência por ser incompreensível. Aprendi a gostar de versos na faculdade e a escrevê-los após o término do curso. A literatura nunca me salvou, ela me desnudou. No melhor sentido agambeniano.  

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