Sobre Carlos

Conversávamos sobre poesia, como era de se esperar. Tardando a noite, escurecendo o olhar. Comentávamos sobre Os Lusíadas, que belo poema a se tratar em todos os gêneros textuais. Mas que plasticidade!
Neste monólogo de um espectador só, talvez dois, esquecia eu que relacionávamos o assunto à leitura de Carlos, como se a experiência fosse a mesma, como se o poema fosse o mesmo, como se poesia fosse uma coisa só. Lembro de ler Escada pela primeira vez. Lembro de compreender mais do que a imagem, mais do que palavras e isto é o sentido do afeto.
Eu não leio Carlos (assim como eu e o Caio não lemos Clarice), eu não estudo Carlos, eu não decoro Carlos. Mas, uma vez visto, e sentido como se deve, o Carlos penetra entre as palavras como almas penadas, vagando em desespero sem achar seu habitat. Percebes a diferença? Carlos não está na linguagem, nem no vão entre pensamento-linguagem, nem na imagem. Está antes. Está no espectro diabólico do entre ideia-imagem, na relação indigna do meu corpo com o que sinto. Ele é engrenagem. Não o vejo, não o percebo, mas basta fechar os olhos para ouvir o farfalhar do seu vulto por entre o incognoscível noturno da minha voz.