Manifesto em defesa do dibre
Eu leio estas resenhas futebolísticas e fico abismado com
tanta sapiência sobre técnicas, estratégias e subversões do jogo mais famoso do
mundo. Porque, para chutar uma bola, não é necessária força, precisão, vento,
temperatura, ambiente externo ou qualquer bater de asas de um pássaro voando a 12
metros de distância do gol, e digo isso com sapiência de quem nunca tirou mais
que sete em Física. Estes não são índices fundamentais para o cálculo perfeito
da trajetória da bola. Veja que até mesmo a personalidade do narrador influencia
o jogo. E digo isso como vascaíno, deus me livre narrador urubu.
Me espantam estas resenhas futebolísticas tão estruturais e
jornalísticas, elas clamam por um sistema métrico inexistente. Por isso o
Eurico ainda é dono do Vasco, certas entidades não devem ser apagadas da
história nacional, muito menos a maneira tipicamente brasileira de entender o
futebol. Se não ganha Copa, é porque Renato Gaúcho não é o técnico da seleção.
O sangue que corre nas veias pulsantes e saltantes dos jogadores é a métrica
fundamental do raciocínio do futebol carioca. Só quem não foi ao Maracanã não
compreende que uma camisa virada do avesso e o atraso da torcida tricolor são
estratégias morais para atravancar o time adversário. Isso para não citar as
oferendas enterradas no canto mais próximo a entrada D do campo do maraca. Se
você for flamenguista, eu sei que você entendeu. E as lágrimas de mais de cinquenta
anos dos botafoguenses que são a fertilização artesanal in loco
daquele campo.
O jornalismo, e isto é um manifesto, precisa parar de obter
informações dos calculistas de treinamento físico. Futebol é uma arte, ninguém
nunca falou de esporte. Aonde ficam as inúmeras atuações de Romário ao cavar um
pênalti? E as estatísticas de bar: “meu time nunca foi pra série C”? Só quem
vivencia o espírito da torcida pode narrar um jogo. Os articuladores de sofá
não podem ter mais valor do que o indivíduo que parte para Sergipe para ver o
time perder para o Lagartense. E se não sabe que o melhor time do Rio é o América:
podemos já destratar o profissional que ousou escrever, dissertar, analisar,
conceber diálogo ou interlocução sobre o assunto. Só quem ama a camisa e a veste
na segunda-feira pode compreender que a emoção é o único termômetro de uma
partida de futebol.
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