O ano do Galo

Em princípio de dezembro, quando o verão começa a dar as caras, as luzes do quarto começam a influenciar na temperatura amena do ambiente; a penumbra, minha melhor amiga, parece mais amistosa e agradável do que a intensa fixação pela luz. O foco é somente o texto a minha frente e nada mais. Faz tempo que não enfrento meus próprios pensamentos a ponto de expô-los plenos e sensíveis ao toque em uma tela de computador. Sentemo-nos para apreciar sete ou dez palavras, ou mais, que serão escritas.

Fim de ano, boa parte dos colegas começam a escrever sobre as motivações, frustrações e recordações dos 300 dias que ficaram para trás, numa busca pretenciosa pela afirmação do futuro. Isto ocorre precisamente por um cálculo matemático, destes de raciocínio lógico que aprendemos no colegial, que mede a progressão futura; é necessário contar os pares positivos e negativos anteriores. Uma simples coleta de dados e duas fórmulas depois, temos as previsões para 2018. Funciona para qualquer ano. Mas, ainda assim, tentada pelos modismos das mídias de massa, faço o meu breve e não tão breve ponderamento sobre 2017. Antes, cinco coisas a saber sobre mim; não acredito em astrologia, não penso que há mágica entre os dias 31 de dezembro e 1 de janeiro, só amo o meu gato, as coisas não vão ser diferentes porque eu quero, costumo mentir para mim mesma.

Segundo a astrologia, o ano de Saturno, pai temido e rigoroso, seria um ano de revisões, dificuldades financeiras, muito trabalho e pouco resultado. Como sempre, os astrólogos acertaram - tome como ironia - mas esqueceram daqueles detalhes pequenos que diferenciam um ser humano do outro. Para a nossa decepção, os ricos continuaram ricos e os pobres menos do que se imaginava. Para mim, além do amor eterno pelo Tebas, sobraram algumas migalhas do tempo em que estava perdida fora de mim. Nada foi para mim. O esforço deste ano resultou em um diploma, algum dinheiro e três noites mal dormidas. Talvez mais quando eu estava internada (não posso esquecer do punho quebrado, nem da vontade de reler Llansol). Fato é que das adversidades retiramos lições para a vida, que às vezes esquecemos e fazemos questão de esquecer, mas ainda assim, experiências que modificam o corpo e ações sobre ele.

Em 2017, aprendi a aproveitar o agora e calcular o futuro. Se eu olho para as minhas mãos e elas não seguram nem vão segurar nada, talvez seja porque elas devessem estar apontadas para o computador, voltadas para uma missão. O descanso é recompensado com criatividade, mas nem sempre este é o melhor recurso. Se há tempo, faça agora:  e isso serve para qualquer coisa, desde ir ao banheiro, até pintar um quadro. Os registros da memória são abismalmente falhos. São falhas geológicas inteiras em frações de segundos. A célebre frase: “eu fechei a porta?” é o exemplo fatídico de que não há controle inteiriço sobre o tempo. O lapso de uma porta aberta - que além de permissiva é convidativa a diversos erros repreensíveis humanos - acarreta situações de resolução urgente, e viver na urgência é doentio. É isso o que acontece quando não nos damos conta: adoecemos, botamos a culpa no refrigerante cancerígeno e acendemos um cigarro para relaxar. Fugir deste grande nicho chamado ansiedade é o que eu aprendi neste ano. Ao fechar uma porta, preciso saber que ela está fechada, assumir verbalmente a minha condição de partícipe e responsável pela ação.  A essa altura você deve ter percebido que a história da porta era uma metáfora, correto? É necessário ver e olhar, estar de alguma forma na experiência.


O celular, por exemplo, foi um grande vilão. Meu Samsung Galaxy alguma coisa é um bebê insaciável. A atenção dada a ele não pode ser superior a que eu ofereço ao Tebas. Estas lições de amor, ao contrário do pai severo, eu aprendi com Saturno, ou no decorrer destes dias todos. Para mim, restou aquilo que aprendi a construir, pequenas ligações invisíveis de intimidade entre meus olhos e o do meu próximo. Os trechos leves e rotineiros de conversa, as coisas tristes e tão dolorosas da perda, os momentos de convergência teórico-política-social-filosófica, os ensinamentos vindos de fragmentos esquecidos do passado, tudo isso elevou pontes e construções altíssimas de confiança e reciprocidade. Aos meus amigos, companheiros, colegas e espectadores, muito obrigada por este ano. 

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