Fiama: sereia no mar
Eu estava recordando de duas ou três lembranças sobre Fiama,
como as que na maré vêm repentinamente molhar e salgar as areias sob meus pés. Lembro
de pintar a Fiama pelos olhos do professor Jorge e, na minha cabeça, parecia
muito sutil, e ao mesmo tempo propício, que eu começasse a escrita analítica e
crítica-literária sobre este viés, da metonímia, habitação e outras coisas que
ela ensinou ao Jorge. Mas lembro também que, das poucas vezes que pude ouvir o
Jorge, um mundo inteiro de possibilidades se abriu ao meu olhar. Tanto nas ondas
que batizam e protegem seus seguidores, quanto daqueles que se perdem nas
triangulações na água.
Permito um breve comentário: o triângulo, além de figura
geométrica de três ângulos, representada e símbolo de trindades e
grandiosidades religiosas, também é uma forma de medir. Triângulo na água,
triangulação terrestre, são modos de achar um plano ou focalizar um ponto. Paro
aqui a deambulação, não sejamos baudelerianos. Continuo o meu raciocínio, que
parece caótico, mas é simétrico e, por isso, simultâneo. O objetivo deste raciocínio
era achar uma brecha, pequena que fosse, para forjar um artigo científico sobre
Fiama Hasse Pais Brandão, nascida em 15 de agosto de 1938, na cidade - falecida
metrópole - Lisboa, na minha visão colonial brasileira. Faço as ligaduras
pensando no que sei sobre seus versos, e puxo pela memória os momentos em que
ela apareceu nos discursos que já ouvi ou li.
Ao aceitar, para mim mesma, o fato de que eu queria escrever
sobre Fiama, pensei em continuar do exato ponto em que parei. Após dois anos e
meio lendo, estudando, analisando, escrevendo, dissertando sobre a estrutura
poética de Joaquim Manuel Magalhães, parecia certo e preciso começar pelo que o
Magalhães havia escrito, dito, pensado sobre ela. Pobre momento em que, chafurdando
as pastas, livros e material base da minha dissertação, não achei nenhuma
referência dele sobre ela, mas somente dela sobre ele. Notas. Pequenas palavras
amontoadas em colunas finas de periódicos sobre poesia, pouca coisa, entrevista,
resíduo, poeira ao vento.
Retornando desacreditada e um pouco frustrada, admito, o suspiro
fundo de cair os ombros me fez refletir sobre: onde ouvi falar de Fiama? E,
caro leitor, caso não me conheça de outras épocas, saiba que um dos meus passatempos é catar - na areia fina dos pensamentos - pequenas anotações esparsas
em cadernos antigos, os meus de preferência, e achar naquilo a lápis, o instante
esquecido em que o carvão tocou o papel. Isso é possível dentro da minha mente.
Vasculhando a neblina funda dos ecos do passado, lembrei daquela aula, em dois
mil e quinze. O Jorge foi convidado para dar uma aula de duas horas, que se
transformaram em quatro interruptas horas, sobre uma poesia de autoria
feminina. E retornamos ao caput deste ensaio.
Pintei Fiama com as cores daquele discurso e, como afirmado
anteriormente, algo deveria estar registrado daquele evento. Percorrendo
novamente os arquivos plásticos, removendo e manuseando papéis enrugados,
procurava pela cópia do poema de Fiama, distribuída pelo professor. Haveria ali
a chave de início para a minha final descrição sobre autora. Para a minha
sorte, o papel existia. A pasta correta continha o papel, mas, no papel, não
havia nota. Não satisfeita percorri os cadernos, aquele vermelho com a inscrição
“keep calm and carry on”, frase inglesa e autoritariamente removida do seu contexto.
Das palavras do Jorge, restaram vinte e sete, das quais uma está taxada, outra
é o nome da autora e mais seis, descobri depois, formam o título do poema
analisado. A sorte é que o caderno mantinha a inscrição na capa. Com uma coroa
de enfeite. Tome como brinde.
Como boa pesquisadora, lembro vagamente de um momento que,
escrevendo a dissertação, pensava sobre o espaço vazio (e em negativo) que uma
palavra permite ao ser declamada. Digo pata para não dizer tapa, típica aula
sobre sintagma e paradigma. No vazio do não escrito, existe esta potência a ser
explorada. Das vinte e sete palavras transcritas no caderno, não existe
referência a musicalidade, apesar da minha memória apontar para esta falha. Minha
mente pensa: o Jorge disse que há uma certa musicalidade maneirista na poesia
de Fiama; meus olhos vêm: nenhuma das vinte e sete palavras significam isto. “O
vento é quixotesco” é a referência que me traz a música. Qual a nota é tocada
na poesia de Fiama?
Recorro às palavras da poeta em “Teoria da realidade,
tratando-a por tu” e surpreendo-me ao ver, com os meus olhos marejados, que as
palavras “fala”, “ouvir”, “cantar” surgem de pronto na primeira estrofe do poema.
Não volto a estes versos desde 18 de junho de 2015 (data aproximada), e agora
em fevereiro de 2018 reflito se acredito mais na minha memória, no poder da
poesia ou em espíritos desencarnados. Alguém assobiou isso no meu ouvido, ainda
estou descrente. A nota de Fiama Hasse de Pais Brandão seria essa figura mítica
representada por uma alucinação burguesa espanhola, que nunca foi escrita por Cervantes;
uma sereia quixotesca. Gosto de pensar que esta sereia é volátil, se dissolve
no ar: “O vento é quixotesco”. A voz do poema, sereia, é falseada, está para a
visão como uma miragem, ondulando no horizonte. Provavelmente achamos o tom.
Uma Piaf.
Comentários
Postar um comentário